Om Namah Shivaya

março 23, 2010

 Seja bem-vindo ao blog do Centro Sivananda de Yoga e Vedanta de Porto Alegre. Aqui você terá acesso a alguns textos, arquivos de áudio, vídeos e fotos dos mestres Swami Sivananda e Swami Vishnudevananda, bem como de seus discípulos diretos. Esse também é um espaço para o contato com toda a riqueza do conhecimento do yoga, desde ensinamentos sobre o Karma, Bhakti, Raja e Jñana Yoga ou até mesmo pensamentos inspiradores para o seu dia-a-dia.

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BE UP AND DOING – O YOGA DA AÇÃO

junho 5, 2010

 

 

 

 

 

 

por Swami Durgananda, Yoga Acharya

Se não sabemos como agir na vida, asanas e pranayama não nos ajudarão muito, porque cada ação errada nos levará a dor física e mental. Nossas ações prévias criaram muitas reações no presente. O Yoga explica como agir sem criar mais nenhuma reação.

 Yoga na Vida Diária

 Nós pensamos ser inteligentes.  Focamo-nos em um tipo de conhecimento que nos ajudará a sustentar nosso emprego e manter nosso seguro, aposentadoria, uma casa, um carro, nossa situação social, roupas, nosso visual e nossa saúde. Isto ocupa todo seu tempo. Tal qual um hamster, pensamos que corremos para algum lugar. O Yoga nos ensina a desenvolver a inteligência pura, a discriminação pura; Isto nos ensina olharmos um pouco mais adiante o que nós vemos ou o que nossos impulsos estão nos dizendo. Fazer apenas impulsivamente o que você tem feito durante muitos anos não é inteligente. O necessário é bem desenvolver um poder de raciocínio, equipado com lógica. Nós podemos falar muito sobre lógica, mas isso não passa de uma discussão na mesa de jantar. Quando isso vem em nossa própria vida, continuamos agindo impulsivamente.

 O medo constante nos impede de seguirmos adiante. Preocupar-se com tudo, vivendo constantemente no futuro ou no passado, mas nunca no presente – tudo isso nos carrega para muito sofrimento, assim como teremos que encarar as reações que esta atitude tem criado. Com o passar do tempo, a depressão será o resultado. Muitos doutores dizem, “Bem esta pessoa tem 60 ou 70 anos – é normal estar deprimida”. E eles prescrevem pílulas. Isto é considerado “normal”. Isto não é normal! Ao contrário, deveria estar desfrutando! Se você trabalhou duro durante toda sua vida, você deveria estar em paz consigo mesmo e não estar deprimido! Isto não acontece apenas com pessoas que passaram durante toda sua vida sendo obviamente preguiçosas. As pessoas podem ser bem sucedidas em seus empregos, vestir as melhores roupas, ter os melhores costumes, possuir o melhor estudo – mas ainda os resultados de suas ações os levam muitos deles a depressão.

 O Bhagavad Gita diz que este tipo de pessoa é o demônio. Porém, não estão matando ou roubando. O demônio repousa sobre a insatisfação. Você sai para comer e olha para o menu: “Oh vamos comer algo caro! Vamos comer um peixe caro, uma carne cara e beber um vinho caro. Eu tenho 60 anos agora. Trabalhei toda minha vida. Vamos pedir o vinho tinto que custa 300 euros a garrafa. Eu mereço isso agora! Você quer me acompanhar?” Isto é demoníaco, porque depois você não se sentirá nem um pouco bem. Talvez se sinta bem por uma hora. Você já não se sentirá bem quando a conta chegar. E quando você chegar em casa, em sua cama, tudo o que você terá é seu coração, seu fígado, sua vesícula biliar e seus rins lamentando.

 Somos livres para escolher, mas liberdade não significa que podemos fazer o que bem entendermos. Como sociedade nós já tentamos isso e não funcionou. A liberdade que pensávamos ser liberdade está agora voltando-se para nós. Famílias estão se desfazendo. Se o casal está trabalhando, pode haver uma casa e um carro, mas não existirá receptividade. Quem cozinhará para as crianças? Quem as alimentará? Quem lhes dará o amor do qual elas precisam?

 Muitas pessoas que vem aos Ashrams atualmente, não estão acostumadas a comer em horários regulares, não sabem cozinhar, não sabem como cortar os vegetais, como lavar suas roupas ou mesmo seus corpos. Temos que ensinar tudo a eles. Apenas aprender as técnicas de asanas e pranayamas não é o suficiente. Muitas pessoas negligenciam as bases para uma vida saudável, nas quais sem isso o yoga não pode ser praticado com sucesso. O resultado é acidez no estômago, fraca absorção nos intestinos e constipação no cólon – como alguém pode esperar que o prana, a energia vital, flua?

 Também se você dormir demais, a energia mental vai baixar. Isto se torna um hábito. Isto tomará tempo e esforço para lentamente superar tal hábito. É a mesma coisa com a alimentação. Não coma muito, nem coma pouco. Alimentação balanceada não é fácil. Isto é algo que devemos descobrir por nós mesmos, porque não temos padrões para nos mostrar.

 Os Três Gunas e a Mente Elevada 

 O yoga nos ensina sobre os três gunas ou qualidades da mente, que são sattva (pureza), rajas (atividade) e tamas (inércia). Quando sattva predomina em uma pessoa ela está calma e serena. Quando rajas predomina, ela está agitada e excitada. Quando tamas é predominante, ela está entorpecida e tola. Geralmente a compreensão dos gunas é por demais simplificada: “Eu estou acima de tudo! Eu estou olhando para os outros – oh, como a maioria das pessoas são rajásicas. E aquela pessoa continua fumando e bebendo – quão tamásica! Não ouso nem apertar as mãos desta pessoa tamásica.”

 Este é o estágio inicial. Categorizamos os gunas como um semáforo: vermelho para parar, amarelo para usar o freio e verde para dirigir. É assim que nossas mentes funcionam. Entretanto, a realidade não é assim. Os gunas estão em nós e em tudo. Através dos gunas todo o jogo de maya (ilusão) toma seu lugar. Se entendermos este jogo, nós aprendemos a discriminar e tentar agir apropriadamente – mas, então, falhamos: “Oh! É mais difícil do que pensava! Deixe para os Swamis estas coisas. Mas os Swamis também estão falhando. Eu achava que os Swamis eram muito sáttvicos! Mas olha, eles estão dormindo na meditação – eles são tamásicos! E tudo o que eles fazem é correr por aí o dia inteiro – eles são tão rajásicos!”

 Sattva pode ser reconhecido não apenas pela ação, mas também pela intenção e motivação da ação. Enquanto nossa observação estiver dominada por rajas, não conseguimos perceber estes aspectos sutis da ação. Um iniciante tende a ser um observador rajásico e pode pensar: “Eu estou separado. Eu sou melhor do que qualquer um. Eu tomei o Curso para Professores de Yoga (TTC) e eu sei o que é real!” É interessante notar que grande parte das pessoas pensa desta forma. É por isso que gostamos de estar entorno de grandes pessoas. Eles estão prontos para aprender coisas novas em qualquer momento, enquanto pessoas orgulhosas, que crêem saber um pouco mais são terríveis de estar em volta.

 É fácil olhar para uma pessoa que não toma banho ou que veste roupas sujas e dizer que ela é tamásica. Contudo, o tamas real está na mente. Uma pessoa tamásica pensa que o corpo é real. Você pode estar vestindo roupas de design italiano ou francês, com o melhor perfume e você pode ter um ótimo carro e viver na melhor zona da cidade, mas se você pensa que o corpo é a única coisa que existe, então seu entendimento é tamásico.

 O Bhagavad Gita nos oferece um belo ensinamento sobre os três tipos de felicidade:

“Aquilo que é como veneno no princípio, mas ao final é o nectar – esta felicidade é declarada por ser sáttvica”. Quando você chega pela primeira vez em um programa intensivo de yoga como o Curso para Professores de Yoga (TTC), isso pode ser sentido como um veneno: mudança de ambiente, mudança de clima, mudança de ritmo, acomodações partilhadas com outras pessoas. Outro exemplo é jejum: isso também é sentido como um veneno no início. Nos primeiros dois ou três dias você tem dor de cabeça, seus ossos e juntas doem, você está com fome e miserável e mal pode abrir seus olhos. O corpo elimina toxinas pela respiração e perspiração. Em seguida, porém, a experiência se torna maravilhosa. Corpo e mente rejuvenescem e a paz interior aparece. Se você compreender isso, você se tornará apto para discriminar apropriadamente e perceber a felicidade que, ao final, é como o néctar.

 “Esta felicidade que chega dos orgãos dos sentidos e objetos, que no princípio é como o néctar e ao final é como veneno – isto é declarado rajásico”.

 Em nossa vida normal, nosso julgamento procura por aquilo que é mais fácil, por que nós queremos evitar dificuldades. Onde posso fazer mais dinheiro, o que é mais confortável, onde posso trabalhar menos, qual o chefe menos exigente – esse é o emprego que você pega! Não procuramos um trabalho no qual tenhamos que trabalhar nossa própria disciplina e realmente desafie nossas próprias mentes. O único desafio que estamos interessados é no dinheiro. Se você faz uma ação, porque espera felicidade desde o início, isto é uma escolha rajásica. É o néctar no começo, mas veneno ao fim.

 “A felicidade da qual no princípio, resulta de uma ilusão de nosso eu e retira-nos do sono – isto é imprudência e tamas”.

 Dormir demais, muita comida que excita nossos sentidos, álcool, cigarros, drogas, todas as coisas com as quais tentamos excitar nossos sentidos – essas são ações tamásicas, porque nos empurram para baixo em nossas ações. A força de vontade diminui e nos tornamos como vegetais. A vida é reduzida a comer, beber, dormir e procriar. Nós chamamos isso de um “bom final de semana”. Então, de alguma forma nós arrastamos nossas vidas de segunda a quinta e esperamos pela mesma experiência de final de semana. Isto é tamas.

 Ensinando Yoga Hoje

 Asanas você pode aprender em qualquer lugar. Você pode achar um professor de yoga em qualquer cidade. Swami Sivananda, Swami Vishnudevananda e outros grandes mestres do yoga da Índia treinaram pessoas para elevar suas almas até o sattva real, a pureza real. Esta é a essência do Curso para Professores de Yoga Sivananda (TTC).

 Cada pessoa age de acordo com sua natureza. Após iniciar o treinamento por quatro semanas durante todos os dias com asanas e pranayama, você vai descobrir que este modo de vida vai bem com sua própria natureza. Passar pelos ensinamentos pode ser apenas natural e pode ser feito sem nenhum orgulho. Esta é a ação adequada. Se você tem orgulho do que você sabe, você vai criar uma reação. “Ele não está tomado pelo orgulho das performances de suas ações, nem mesmo há esperança de ganho com isso”. Quando estamos atuando como professores de yoga, é o nosso conhecimento que estamos passando adiante? Não, mas nós esquecemos disto. Nós achamos que este é o nosso conhecimento, porque nós estamos cercados por pessoas que não sabem muito sobre o assunto. Então, dizemos, “Eu sou o professor de yoga agora”. Nós estamos partilhando yoga por estarmos a serviço deste conhecimento. Exatamente como um cozinheiro serve comida, você serve asanas. Vocês não são melhores ou piores, ambos são servos em seus próprios caminhos. Se você não se esquecer disso, então, sua ação será sáttvica, pura.

 Em yoga nós não olhamos muito o que uma pessoa sabe ou diz, mas o que a pessoa faz. É pela ação que você pode ver onde a outra pessoa se sustenta, não pelo que ela diz. No Ocidente nós ouvimos o que a pessoa diz e pensamos, “Oh, muito inteligente”. E damos a eles títulos: bachareis, mestres, PhDs. Mas como são suas ações? Swami Vishnudevananda não tinha rodeios em relação a isso. Ele disse que um professor pode conhecer a filosofia do yoga, mas ele não necessariamente pratica. Porém, pela pregação, ele pode ganhar toda a fama. Um simples yogue pode estar praticando a filosofia diariamente, mas é encarado como um estranho. Isto é diferente na Índia: nos Himalayas e outras áreas você ainda pode encontrar pessoas que se encontram completamente retiradas do mundo, mas eles não estão olhando de cima. Existe grande aceitação.

 “Aquele pelo qual se vê a realidade indestrutível em todos os seres, não separado de todos os seres separados – conhece o conhecimento do ser sáttvico. Isto significa que estamos vendo o Eu, a Alma ou o alento de Deus em todos, reconhecendo os seres humanos como reflexos do Criador. Esta tolerância e pensamento sáttvicos lhe fornecerão paz mental, porque muitos pensamentos de julgamento simplesmente desaparecerão.

 Se você anunciar ao mundo seu nome e título, você não durará muito. Você vai pirar, porque não consegue sustentar isto. Aceite humildemente ser um reflexo do conhecimento do yoga. Então suas ações serão sáttvicas e você durará porque seu ego não ferverá. Existe um belo exemplo das escrituras: quando você cozinha arroz ele pode se tornar tão macio que quando você pegar um grão e apertá-lo com seus dedos não haverá resistência. Da mesma forma, se o ego é cozinhado através de tapas ou ação, ensinando yoga como karma yoga ou serviço humanitário, então, ele se torna macio como aquele grão de arroz. Se, por outro lado, ele não é apropriadamente cozido, o arroz fica duro. Este é um clássico exemplo para descrever o ego.

  Se você agüentar se tornar um praticante e um estudante enquanto serve como um professor, você aprenderá tudo. Os estudantes virão até você e o ensinarão. Inconscientemente os estudantes servem os professores. Algumas vezes ouvimos certas pessoas espiritualizadas dizendo, “Obrigado por vires, assim posso servi-lo”. Isto é tão verdadeiro. Quão solitária é uma sala de yoga sem estudantes! Nós devemos agradecer os estudantes por comparecerem e nos dar a oportunidade de servir. Esta é a atitude que Swami Vishnudevananda tinha conosco. Ele sempre dizia, “Eu sirvo você com todo meu coração e se você não entender os ensinamentos, não será uma falha dos ensinamentos, mas uma falha do professor. Peço a você que me perdoe se não fiz claro os ensinamentos”. Ele costumava fazer isto ao final dos cursos e se prostrava na frente de todos.

Em outra ocasião Swamiji nos contou que quando jovem prostrou-se perante um grande swami e enquanto fazia isso, sua própria mente pensou “Olha que humilde eu sou, eu estou prostrado”. Ele pode dizer isso sobre sua pessoa, porque ele estava constantemente vigiando sua mente. Se somos honestos, nossa mente agirá da mesma forma.

 Desfrute do Movimento Pacífico do Yoga

 O Bhagavad Gita ensina, “Abandone as dúvidas, refugie-se sozinho em Mim: Eu o liberarei de todos os pecados; não entristeçais”. Renda-se ao trabalho incessantemente. Ponha a ação para fora, incansavelmente e renda-se aos frutos. Não aja somente se há algo ali para você. Faça pela vontade de fazer o trabalho. Esteja recebendo ou não por isso. Isto é se entregar. E no fim das contas estará se beneficiando com isto? Sua própria alma está se liberando.

 Todos temos de tomar decisões. Se você diz “eu não ajo”, você, no entanto, nunca tomará uma decisão sequer. Tem de se tornar claro o que karma e conhecimento realmente significam. A ação eleva. Muitas pessoas não querem agir, porque estão com medo de cometer erros. Elas dizem, “É melhor eu não agir, é melhor eu ficar aqui atrás”. Desta forma você ficará para trás pelo resto de sua vida.

 Quando Swami Vishnudevananda estava para completar sua última palestra no Curso para Professores de Yoga (TTC), ele dizia, “Se este conhecimento tomou seu interesse, quatro semanas não é o bastante. Venha e fique conosco por um tempo, e ensine”. Esses que permaneciam ele chamava “staff”, um termo bem moderno. Ele não nos denominou discípulos, sadhus ou yoguis. Se você tiver tempo, seja um staff por um tempo e torne-se mais forte. É para isso que serve esta organização. Não estamos aqui para fazer dinheiro. Tudo o que os estudantes nos dão retorna para esta organização. Nós construímos Ashrams, nós mantemos os centros e nós alimentamos e vestimos os staffs. Sendo um staff, você cozinha, limpa, ensina, faz contabilidade, você faz de tudo. Isto permite a você maior flexibilidade mental. Muitas pessoas não são flexiveis mentalmente. Eles só querem fazer aquilo no que são bons e todo o resto eles coíbem de si. No serviço desinteressado você também faz aquelas coisas nas quais não são tão boas. Esta é a essência do yoga do Bhagavad Gita. Você não pode não agir. Através da ação você purifica os gunas, a mente, o corpo, as emoções, o intelecto, todo o seu ser. Neste caminho você pode realizar o Ser em você e encontrar felicidade e força espiritual interna. Então, não haverá mais necessidade de tomar antidepressivos.

Aprenda como agir sem se apegar aos frutos das ações. Fique conosco por um mês ou dois ou seis meses ou um ano. Peça um ano sabático e venha. Nós temos Centros por todo o mundo. Você pode aprender uma língua ao mesmo tempo. Você pode estar em um Ashram ou em um Centro. Você aprenderá como ensinar e como controlar a sua mente, suas palavras e seus sentidos. Yoga se enraizará em você. Estas organizações não estão por aí para trazer conforto aos swamis, e, sim, para que novas pessoas venham e pratiquem yoga com mais intensidade.

 Comigo foi assim um dia na primavera de 1974. Já praticava asanas por vários anos, mas continuava sem conseguir fazer a invertida sobre a cabeça, porque tinha muito medo de cair. Naquela época eu morava em São Francisco e Swami Vshnudevananda foi até a cidade. Ele deu uma classe em uma escola. Eu pensei: “É melhor eu ir – ele é famoso. Aí posso dizer que tive uma aula com Swami Vishnudevananda”. Mais ou menos umas cem pessoas estavam na sala. Swamiji alinhou todos em filas e rapidamente se movia para cima e para baixo das fileiras. Surya Namaskar (Saudação ao Sol), sem problemas. Meu ego disse, “Sem problemas, isso é fácil”! Então, Swamiji disse, “Invertida sobre a cabeça”! Eu pensei que com cem pessoas na sala ele não me veria, até porque sou uma pessoa pequena. Ele disse, “Faça um tripé, posicione sua cabeça, fique na ponta dos pés, caminhe em direção a seu corpo”. Eu fiz isso – e então de repente eu ouvi “SUBA SUBA SUBA SUBA!” Eu pensei que Swamiji falava com meu vizinho, mas ele falava comigo! Ele colocou seus dedos em minha lombar e eu, de alguma forma, estava estendida, sem problemas. Disse a mim mesma, “Isto é demais”! – pensando que Swamiji ainda estava me segurando. Porém, ouvi ele já umas três ou quatro pessoas adiante. Quando ouvi isso, eu caí imediatamente! Entretanto, tendo realizado que poderia fazer isso, me ajudou a fazer a invertida sobre a cabeça novamente. E foi assim que aprendi. A simples verdade de que você só pode saber o que é a invertida sobre a cabeça tentando executá-la, aplica-se a todos os aspectos do yoga.

 Depois da aula de yoga com Swami Vshnudevananda, eu pensei “Talvez eu permaneça com ele mais um pouco. Não é ruim o que ele faz. Ele é um ótimo professor. Talvez eu possa ganhar algum conhecimento.” Então, eu fui e disse, “Swamiji, posso ser um staff”? Ele me pegou com seus braços e me disse “Bem-vinda à família!” Naquele momento eu não entendi o que ele queria dizer com “família”. Agora, depois de trinta anos, eu não me arrependo por nenhum secundo.

 Extraído de uma palestra durante o Sivananda Yoga Teachers Training Course em Vrindavan, India, fevereiro de 2008.

 Swami Durgananda é Yoga Acharya (diretora espiritual) dos Centros Sivananda Yoga Vedanta na Europa. http://www.sivananda.org/tyrol

BARÔMETRO DE PROGRESSO ESPIRITUAL

maio 18, 2010

POR

 

 

SRI SWAMI SIVANANDA

A seguir, um barômetro infalível para averiguar o grau de seu progresso espiritual. Como você se sentiria, se:

  1. Suas mãos limpas ou sua melhor roupa se manchassem.
  2. Você tropeçasse ou cometesse um equívoco e fosse motivo de riso.
  3. Você se ferisse acidentalmente ou fosse picado por um inseto ou um escorpião.
  4. Você sofresse de uma doença ou dor.
  5. Você não tivesse éxito em seus esforços.
  6. Você não conseguisse algo que desejasse ou se desse conta de que perdeu algo.
  7. Você tivesse que esperar  muito tempo por alguém.
  8. Você fosse insultado ou sofresse algum abuso sem motivo.
  9. Outros não cumprissem os deveres com você.
  10. Você sofresse uma perda ou aflição pela morte de alguém.

 

Se nada disso pode perturbar a sua paz mental e caso se mantenha indiferente a todas essas coisas, você ganhou a luta e atingiu 50% de autocontrole. Deus envia adversidades e problemas para fortalecer seu caráter. Aceite-os e prove-se a si mesmo.

 

Om Shanti

SWAMI SIVANANDA – UMA BIOGRAFIA

abril 30, 2010

Por Gopala

  

  

 

 

 

 

Sendo praticamente impossível resumir a vida de alguém desta magnitude, cabem aqui algumas palavras que possam inspirar o leitor a aprofundar sua visão lendo a própria obra do Mestre ou praticando aquilo que seria receitado por ele póprio como o santo remédio para todos os males da sociedade contemporânea: Yoga!

Não reclamando a autoria de nenhum método desta prática, Swami Sivananda conseguiu sintetizar, talvez como nenhum outro, meios tangíveis de tornar as mais antigas tradições em formas dinâmicas de ser e viver no mundo atual, operando através destas transformações individuais e metamorfoses coletivas.

Muitos de nós ainda estamos inconscientemente colhendo os frutos do seu generoso trabalho, cada vez que entoamos OM, fazemos  Surya Namaskar, seguramos o nariz em Pranayama ou simplesmente relaxamos em shavasana.

Como ele diria enfaticamente: “Seja bom, faça o bem- Seja simples e verdadeiro”!

Sem dúvida a melhor forma de honrar a sua memória.

 

Sri Swami Sivananda Saraswati Maharaj (1887 – 1963)

 

 

 

 

 

 

Nascido em uma ilustre família de sábios e santos do sul da índia (dentre eles Appaya Dikshitar, célebre expoente das filosofias Vedanta e Shaivasidhanta), filho de Vengu Aiyer e Parvathiammal, Kuppuswami Aiyer era uma criança que desde cedo manifestava muita afinidade com o mundo espiritual. Seu pai, um piedoso brâmane, que todos os dias fazia seu puja a Shiva, tinha como assistente o pequeno  Kuppuswami.

 

Desde menino manifestava uma personalidade carismática, atraindo sempre todos a sua volta, seja para as muitas brincadeiras que inventava ou espontâneos discursos sobre temas que passavam desde as coisas ordinárias até outras mais filosóficas.

Na sua adolescência, o seu gosto por atividades físicas levou-o a procurar um mestre de artes marciais indianas. Kuppuswami o honrava com grande devoção, trazendo-lhe guirlandas de flores e reconhecendo-o como o seu primeiro guru.

Apesar disso, ele foi obrigado a manter esta relação em segredo, pois sendo o guru uma pessoa pertencente a uma casta inferior, seria mal visto pelos seus pais, que eram brâmanes ortodoxos.

Na sua juventude, seu temperamento magnânimo levou-o a estudar a medicina. Tendo concluído com êxito seus estudos, Kuppuswami tornou-se um dedicado médico, vendo nesta  profissão uma oportunidade para melhor servir seus semelhantes. Ainda na faculdade ele já era editor de uma revista que exaltava a saúde e os exercícios físicos. Este almanaque levava o nome de “Ambrosia”.

Seu primeiro desafio como médico seria de administrar todo um hospital localizado nos seringais na Malásia. A maioria dos seus pacientes eram trabalhadores indianos que ali viviam em condições precárias, longe da sua cultura mãe. O atendimento médico dispensado por ele era de uma natureza muito especial, pois além dos medicamentos e tratamentos convencionais, ele era capaz de passar toda a noite ao lado do leito do paciente entoando bhajans ou mantras para a cura do mesmo.

Em sua vida privada, Kuppuswami tinha todos os confortos  que a sua profissão permitira, gostando muito de roupas da moda, jóias e automóveis. Conta-se que ele era muito generoso e nunca sequer barganhava qualquer preço com os comerciantes, não se sentindo constrangido com o que os bens materiais o proporcionavam.

Regularmente, como é de bom costume na tradição védica, Kuppuswami gostava de receber visitantes em sua residência, fazendo jus ao mantra athiti devo bhava (o hóspede é tratado como Deus), muitos destes eram sadhus ou monges itinerantes, que em troca de hospedagem concediam bênçãos e ensinamentos ao anfitrião.

 Nesta época Kuppuswami já era um entusiasta praticante autodidata de yoga, conhecendo vários asanas e pranayamas através de livros ou breves instruções recebidas de seus ilustres hóspedes. Porém, uma dessas visitas viria a marcar a sua vida definitivamente.

 O sadhu em questão era um Swami que lhe deixou um livro que tratava do Advaita-Vedanta ou conceito não-dual da realidade absoluta. Esta leitura, acompanhada de subseqüente reflexão, levou-o a questionar seriamente o seu propósito de vida. Repentinamente ele perdeu a atração pelas coisas que o rodeavam, considerando que mesmo a sua vocação médica era limitada em relação ao tipo de serviço que ele almejava render a humanidade. Ele pensava “estou curando as pessoas fisicamente, porém como posso curá-las espiritualmente?”. Em seguida, resolveu abandonar o seu posto médico na Malásia para retornar a Índia em busca de uma nova identidade para si próprio.  

Assim que deixou seus pertences com os familiares que lhe esperavam na estação de trem, Kuppuswami nem sequer os acompanhou de volta a casa, dali mesmo embarcou na sua viagem como Sadhu intinerante, percorrendo os muitos lugares sagrados da Índia. Viajando a pé, ele seguiu a risca as recomendações tradicionais de nunca ficar mais do que três dias em cada localidade, alimentando-se somente das esmolas recebidas(biksha). 

Ao chegar em Varanasi, teve o “Darshan” da deidade no famoso templo de Kashi Vishwanath. Ele conta que nesta visão mística fora instruído pelo próprio senhor Shiva de prosseguir a sua peregrinação rumo ao norte, próximo aos Himalaias.

Ao chegar ao remoto povoado de Rishikesh (a morada dos Rishis) no início dos anos 20, imediatamente sentiu-se em casa , sabendo que ali era o lugar onde desenvolveria seu Sadhana (prática espiritual). Foi ao banhar-se nas águas do rio Ganges que teve o encontro mágico com seu Guru -Swami Vishwananda Saraswati- um velho e respeitável renunciante que imediatamente reconheceu no jovem aspirante o potencial de um grande Yogi.

Tendo recebido o nome iniciático de Swami Sivananda  dentro da ordem Saraswati de Shankaracharya, seu Guru apenas o instruiu de permanecer em Rishikesh e praticar as instruções recebidas nas poucas horas que estiveram juntos. “Quando o discípulo está pronto, o Mestre aparece”…

Com total diligência e fé(shradda) nos ensinamentos recebidos, Swami Sivananda iniciou o que seriam anos de intensa prática(tapasya) e realizações(samadhi).

Em sua biográfica ele conta, mais tarde, que muitos dos métodos empregados por ele mesmo não seriam recomendáveis a maioria dos seus discípulos, porém no estado de consciência no qual ele se encontrava, estes fluíam com entrega e bem-aventurança. Um dos seus sadhanas preferidos constituía em ficar imerso até a cintura nas águas do Ganges durante o inverno, praticando Japa desde as três da manhã!

Neste período, estava compartilhado entre um quarto no Swarg Ashram e uma cabana construída no meio da floresta onde ele recebia visitas freqüentes de tigres e outros animais das redondezas que permaneciam totalmente afáveis na presença do yogui.

Ele passava a maior parte do tempo absorto entre horas de meditação, estudo intenso (swadhyaya) e vigorosa prática de Hatha Yoga, a qual ele em breve se tornaria um dos grandes propagadores mundiais. Swami Sivananda era extremamente metódico em seus horários e disciplinas, mantinha todas as experiências anotadas em um diário. Assim logo começou  a escrever pequenos panfletos que ele dava algum jeito de imprimir e distribuir a todas as pessoas que cruzassem seu caminho. Embora imerso no seu próprio caminho de auto realização, nunca deixou de atender pessoas necessitadas de seus cuidados médicos, que fossem si mples  camponeses ou sadhus da região. Notoriamente fazia questão de atender um campo de leprosos o qual mesmo os médicos locais temiam visitar. Dizia enxergar apenas a forma imortal do Ser (atmaswarupa) em cada uma daquelas pessoas.

Assim como o mel chama as abelhas, não demorou muito tempo para que começasse a atrair aspirantes a discípulos. Na época sua reputação de jivanmukta (yogui liberado enquanto vivo)já ressoava em todo o vale do Gharwal (sopé dos Himalaias)  e mesmo em outras  partes  da Índia, aonde seus panfletos  ou relatos de pessoas que o haviam encontrado chegassem.

Mesmo assim Swami Sivananda ainda não tinha planos de abrir ashrams ou institucionalizar seus ensinamentos, preferia seguir o seu trabalho  de uma forma silenciosa e potente. Aos poucos que se aventuravam a receber suas instruções diretas, impunha  disciplina e condições  espartanas, filtrando uma grande quantidade de curiosos.

Quando o número de visitantes começava a perturbar sua paz, decidiu-se  mudar para a outra margem do Ganges em Rishikesh, onde havia apenas uma selva. Este ambiente, portanto, não desencorajou seus seguidores mais sincero, e durante a metade dos anos 30, ali mesmo surgiu entre algumas choupanas e edificações precárias o Sivananda Ashram.

Sivananda inspirava aos seus estudantes por força do seu próprio exemplo pessoal. A sua vida era como um livro aberto, todos podiam vê-lo humilde, sereno seja servindo ou cantando Kirtans.

Vivia sempre alegre, no espírito do Mahavakya vedântico “Tat Twam Asi”(tu és aquilo-Brahman).Seus alunos aprendiam muitas coisas ao meramente observá-lo.

Em suas póprias palavras exaltadas:

”Vi a Deus em meu próprio Ser.

Negando os nomes e formas, o que permanece é existência-conhecimento-bem aventurança absolutas (sat-chid-ananda) e nada mais.

Contemplo-O em todas as partes, não existem véus.

Sou uno, não há dualidade.

Vivendo em meu próprio ser, minha felicidade está além de qualquer descrição.

O mundo dos sonhos desapareceu. Existo apenas”.

Em 1936, foi oficialmente inaugurada a Divine Life Society (Sociedade da Vida Divina), nome escolhido pelo próprio Swami Sivananada para designar o espírito das práticas ali conduzidas que constituía o seu “Yoga da Síntese.”

 Este poderia ser subdividido em quatro abordagens distintas do Yoga, que na visão conciliadora de Swami Sivananda seriam práticas complementares e necessárias para o desenvolvimento do ser como um todo. Karma Yoga (Yoga da ação), Bhakti Yoga (Yoga da devoção), Raja Yoga (Yoga da meditação) e Jñana Yoga (Yoga do conhecimento). Todos eles já se encontram devidamente delineados na escritura clássica do Bhagavad Gita, o qual Swami Sivananada também escreveu um importante comentário (bhasya).

Swami Sivananda dava uma ênfase importante no exercício do trabalho desinteressado como uma forma de purificar as inúmeras tendências latentes do ego. Assim, seus discípulos, ao chegarem ao seu ashram, eram imediatamente submetidos a este “tratamento”. Assim foi o caso de Swami Vishnudevananda, que ainda adolescente, aspirava aprender técnicas avançadas de Kundalini Yoga e Hatha Yoga com o mestre. Logo ao chegar, o jovem recebeu a primeira instrução formal que era de ficar vigiando lentilhas que secavam ao sol, com um bastão na mão, para prevenir que os macacos (abundantes nos bosques da região) as levassem. Similarmente todas as pessoas que entravam em contato com Swami Sivananda recebiam, na dose exata de suas capacidades, orientações imediatas e poderosas no sentido de preparar-lhes para o verdadeiro propósito do Yoga ou da vida humana.

Com um temperamento devocional bastante ecumênico, Swami Sivananda também permitira que várias manifestações religiosas pudessem ocorrer no ashram em ocasiões especiais. Na época isto era pouco comum na Índia, que por tantos anos foi dominada pelos muçulmanos e ainda estava sob colonização inglesa durante a sua vida. Swami Sivananda aceitava como visitantes pessoas de todas as castas, credos ou sexo, incluindo mães solteiras ou viúvas, geralmente muito descriminadas na sociedade indiana. Igualmente foi um dos primeiros a conceder iniciação na vida monástica as mulheres, o que lhe rendeu memoráveis críticas de seus contemporâneos mais conservadores  e rabugentos!

Em sua imensa obra literária (mais de duzentos volumes), Swami Sivananda resgatou aspectos até então mantidos secretos da prática do Hatha Yoga e do Raja Yoga de Patanjali. Nos seus primeiros livros como a “Prática do Yoga” fazia questão de escrevê-los como verdadeiros manuais práticos, tornando-os acessíveis ao grande público e não apenas a elite intelectual da época. No livro “Concentração e Meditação” ele chegou a publicar as suas próprias experiências obtidas em estado elevado de consciência, porém publicou-as com pseudônimos alheios para que estas não soassem como apologia aos seus méritos yoguicos.

Na verdade, ele só poderia publicar experiências que fossem comprovadas na sua realização, evitando polêmicas filosóficas ou quaisquer outros artifícios literários.

“A meditação regular abre as avenidas do conhecimento intuitivo, faz com que a mente seja calma e serena despertando um sentimento extático que põe o estudante do Yoga em contato direto com o supremo Purusha. Muitas dúvidas serão aclaradas por si mesmas através da prática da meditação”.

No famoso livreto “Thought Power” –O Poder do Pensamento- ele nos diz:

“Todo impulso da mente, todo pensamento é transmitido às células. Estas se vêem extraordinariamente influenciadas pelas distintas condições ou estados mentais. Se há confusão, depressão e outros pensamentos ou emoções negativas na mente, estes são telegraficamente transmitidos através do sistema nervoso a todas as células do corpo.

“O pensamento é um poder vital, vivo e dinâmico, a força mais vital, sutil e irresistível que existe no universo.”

Assim ele mesclava conceitos científicos, médicos e espirituais, como um precursor da corrente de “auto-ajuda” que vemos hoje em dia.

Em seu trabalho de disseminação do conhecimento (Jñana-Yagna) foi auxiliado por muitos jovens e brilhantes discípulos. Era uma cena comum encontrar, no seu escritório, a beira do Ganges, seis ou sete de seus discípulos datilografando simultaneamente livros do mestre. Swami Sivananda era capaz de ditar os respectivos trechos dos livros a todos eles sem nunca perder o fio da meada.

Aos poucos muitos visitantes estrangeiros começaram a visitar o ashram. Swamiji lhes dava atenção e carinho especiais, introduzindo-os, suavemente, as nuances da cultura indiana ao mesmo tempo em que lhes ensinava as várias técnicas do Yoga e da filosofia Vedanta, dentro da qual se considerava um expoente prático. Ele resumia ensinamentos dos Upanishads em simples frases ou slogans para que as pessoas pudessem assimilar mais rapidamente o seu sentido e aplicação: Serve, Love, Give, Purify, Meditate, Realize (Sirva, Ame, Dê, Purifique, Realize) era o seu favorito.

Empreendedor mesmo para os moldes atuais, funcionavam dentro do ashram uma biblioteca, uma impressora, um museu do Yoga, laboratório fotográfico e especialmente um hospital beneficente, atendendo pacientes que vinham para tratar desde enfermidades comuns  até cirurgias de olhos. Ali também havia uma farmácia ayurvêdica e homeopática. 

Dentre os seus mais importantes discípulos, que viriam a dar continuidade ao seu trabalho em anos futuros, temos os nomes de: Swami Chidananda e Swami Krishnananda (nomeados presidente e secretário do ashram após seu mahasamadhi), Swami Venkatesananda (autor de excelentes livros e grande orador), Swami Vishnudevananda, Swami Satchidananda, Swami Satyananda, Swami Jyotirmayananda, Swami Chinmayananda (fundadores de renomadas instituições que disseminaram o conhecimento do Guru em todo o mundo).

Juntos, enquanto ainda viviam no ashram de Swami Sivananda, eles formavam o corpo docente da chamada Yoga Vedanta Forest University, uma instituição fundada em 1948 cujo objetivo era transmitir os mais nobres aspectos do Yoga e do Vedanta a alunos vindos de todas as partes. Swami Vishnudevananda ficou encarregado com o ensino do Hatha Yoga, pois dominava com maestria e aptidão esta ciência milenar. Foi também ele o primeiro discípulo enviado por Swami Sivananda ao ocidente no final dos anos 50, fundando os Sivananda Yoga Vedanta Centers.

Graças ao seu trabalho, muitas pessoas conheceram a Sivananda, tendo escrito o best seller  The Complete Illustrated Book of Yoga” em 1960. Esta obra foi fundamental ao trazer a prática do que hoje se conhece como Sivananda Yoga em todo o mundo. Vishnudevananda popularizou uma sequência de doze asanas principais que eram praticados Rishikesh, aliadas a técnicas de pranayama, relaxamento, alimentação vegetariana e meditação.

 Da mesma forma, cada um de seus discípulos trouxe a sua contribuição perene ao estabelecimento de uma consciência global em relação ao Yoga.  Sem nunca ter saído da Índia, Sivananda alcançou praticamente todas as culturas. Desde o início ele mantinha contato com pessoas em vários países, escrevendo sucintas instruções em forma de cartas a mão, que foram mais tarde compiladas em um livro chamado “Sivananda Upanishads”. Muito inspiradoras, percebemos o seu espírito pragmático e encorajador ao lê-las.

Os últimos anos da sua vida foram marcados por enfermidades naturais para quem passara tantos anos em abnegado sacrifício em prol dos demais. Mesmo assim Swamiji nunca deixou de continuar a trabalhar, estivesse em uma cadeira ou deitado. Contam os seus discípulos que a sua força de vontade era tamanha, que se necessário era capaz de simplesmente se levantar e cumprir tarefas como se nada estivesse lhe perturbando, logo após retomando a sua posição de “doente”.

Aceitava esta sua condição com leveza, referindo-a a última parte de Prarabdha Karma (resíduos kármicos) que lhe restava.

Tendo seu Mahasamadhi (liberação final do corpo) em  14 de julho de 1963, as suas últimas palavras foram “Attach, Detach” (apegue, desapegue) no sentido de desapegar-se do corpo transitório e apegar-se ao espírito imortal.

Ele será sempre lembrado  por todos os aspirantes do Yoga pelo seu amor,humor e sabedoria.

Om Tat Sat

Gopala

O PRANA COMO ELETRICIDADE

abril 7, 2010

Um excerto da nova reimpressão comentada do Hatha Yoga Pradipika

por Swami Vishnudevananda 

Seu corpo físico é como uma máquina. Nele correm dois tipos de energia: energia química, que vem do alimento, e energia psíquica (chamada prana) proveniente de todos os objetos que absorvemos: comida, água, ar e luz solar. Estas são as fontes de nosso prana e elas são encontradas em toda a natureza. O prana também existe no vácuo, no subsolo e até mesmo na água. Entretanto, não é algo químico, é de natureza elétrica. Seu corpo é um armazém de prana e o sistema sangüíneo (sistema circulatório) atua como um transformador, redirecionando o prana do astral ao físico.

Os yogues não acreditam que o corpo existe meramente por causa de sua natureza fisioquímica; para eles o corpo é basicamente de natureza elétrica. Quando a conexão elétrica do astral para o físico é cortada (como uma bateria que se desconectada de um motor), não importa o quão potente o motor é, ele não pode ligar. Os impulsos do prana viajam através do astral para o físico por um cordão umbilical astral até nosso plexo solar. Quando este cordão é cortado, não pode haver mais prana no corpo físico. Se o prana flui em pequeníssimas quantidades então o corpo entrará em coma (inconsciência).

Compreendendo a natureza elétrica de nossos corpos, você entenderá o propósito do pranayama. Tentarei explicar em uma terminologia moderna, já que alguns dos termos ancestrais são de difícil alcance.

É dito que você pode bloquear o ar no Sushumna, na região da garganta, na região dos ouvidos, na região dos olhos. Na realidade, como você pode bloquear o ar nesses lugares, quando o ar que você inspira não passa de forma alguma por tais pontos? O que isto significa?

Na verdade, não é um bloqueio físico; é o desvio da energia de uma fonte para outra. No yoga, chamamos esta energia de prana. O problema é que não há um equivalente em Inglês/Português para esta palavra, desta maneira foi traduzido como ‘ar’. Mesmo os yogues indianos cometem esse erro quando não sabem como traduzir tal termo do Sânscrito.

Gosto de explicar estas idéias utilizando analogias com termos eletrônicos. A maioria de vocês está familiarizada com aparelhos, como rádios, câmeras e computadores. Existem três componentes básicos, comum a todos eles. Coisas similares existem em nosso corpo, mas, por favor, não tome o que disse literalmente; fiz isso apenas para você compreender como essas coisas tais como ‘trancas’ trabalham no mecanismo do corpo. Quando você fizer pranayama, lhe ajudará enormemente em lidar com isto, se você entender tal processo. Três aspectos devem ser compreendidos: 1. Transformadores, 2. Condensadores e 3. Resistores.

Transformadores: Nos componentes eletrônicos há sempre uma fonte de força, normalmente uma bateria ou corrente doméstica. Um pequeno gravador não pode suportar a corrente de 110 volts que entra em uma casa, sendo assim, deve-se reduzir a voltagem através de um transformador, caso contrário os componentes queimariam (Existem transformadores para aumentar e reduzir a voltagem).

Condensadores (também chamados Capacitores) são armazéns de eletricidade. Um exemplo disto é o flash eletrônico em sua câmera. A eletricidade para o flash vem de uma bateria de 6 volts, mas a voltagem não produz luz suficiente para se fotografar. São necessárias muitas centenas de volts para criar uma luz intensa e, dessa forma, a energia proveniente da pequena bateria é armazenada (não é elevada ou reduzida) como um reservatório e acumulada até o momento em que possa criar um poderoso flash em um breve momento.

Resistores: Outro conceito na eletrônica que pode nos ajudar na compreensão é a noção de resistência. Nós podemos elevar ou reduzir a resistência de um fluxo de energia. A maioria das impurezas reduzirá o fluxo elétrico. Um exemplo é a conhecida mangueira pela qual a água flui em uma velocidade específica conforme obstruímos o esguicho d’água. A torneira segue forçando 16 galões de água por minuto através da mangueira, mas quando sua capacidade é reduzida pela constrição de seu orifício, a pressão aumenta e a água sai com muito mais força.

Em nosso corpo, existe algo similar a um condensador. O prana é como eletricidade, mas muito sutil. Toda a eletricidade corre através das redes de fiação e em no nosso corpo ela flui por meio dos nadis (ou os chamados meridianos no sistema Chinês). O problema aqui é que quando digo nervo, muitas pessoas entendem apenas o tipo visível de nervo. O nadi é o equivalente ao nervo no corpo físico, mas pode ser denominado tubo astral, já que não existe no físico, mas no corpo astral. Não serei capaz de expressar completamente todo esse tema em termos eletrônicos, mas há uma similaridade entre um nervo físico e seu nervo astral; eles são suas contrapartes. A diferença é que um é visível e o outro não.

Em nossos corpos, o impulso proveniente do cérebro através dos nervos vagos, os quais controlam o coração e os pulmões são todos impulsos chamados prana. Anteriormente, achava-se que o coração não era suscetível ao controle voluntário, que você não poderia controlar as batidas do coração pela concentração. Os yogues podem demonstrar que os batimentos cardíacos podem lentamente reduzir-se com a concentração ou por práticas como Jalandhara bandha. Eles cessam a operação do fluxo de prana. Nós não estamos falando de prana físico, mas de prana psíquico.

O pensamento pode mudar seu ritmo respiratório assim como as batidas do seu coração. Dois importantes componentes de seu corpo são conjuntamente denominados sistema cardiovascular, já que são interdependentes. Quando o corpo precisa de oxigênio extra, a marcha do coração se eleva. Para fazer com que o bombeamento dos pulmões se torne mais rápido, você deve estimular os músculos do diafragma e intercostais. Isto é produzido pelo cérebro. Em uma emergência, digamos que você esteja correndo porque um tigre o persegue e você está prestes a atingir exaustão, a glândula adrenal, através da adrenalina, fornecerá ao coração um estímulo extra para que assim os pulmões possam respirar um pouco mais rápido em um curto tempo. Isto é o equivalente ao capacitor nos aparelhos eletrônicos dos quais mencionei. A natureza nos ofereceu a habilidade de escapar de situações perigosas. Esta estimulação extra, ativa a glândula adrenal, que bombeia adrenalina na corrente sanguínea, para que assim o coração receba uma rápida excitação por um curto período e, dessa forma, possa bombear mais oxigênio aos músculos. Vamos tentar entender o sistema cardiovascular, para visualizar como o ritmo cardíaco e a respiração estão conectados.

Existe um aparelho chamado polígrafo ou detector de mentiras. Assim como o Eletro encefalograma (EEG) testa as ondas mentais, o polígrafo mensura os três componentes básicos mais conectados ao sistema nervoso autônomo, um sistema que basicamente está fora de nosso controle. Grosso modo, o sistema nervoso autônomo está além de nosso controle, entretanto, os yogues podem controlá-lo. No polígrafo, os três componentes básicos são:

1. Para demonstrar e medir seu padrão respiratório, quantos ciclos por segundo você está respirando (normalmente respiramos 16 vezes por minutos).

2. A pulsação (normalmente 75 ou 80 por minuto).

3. A resposta galvânica da pele. Abaixo de nossas glândulas sudoríparas existem nervos que carregam impulsos sensoriais.

Um dos três componentes básicos em um polígrafo é a resposta galvânica da pele (RGP), medida pelas glândulas do suor, que sofre alterações de acordo com o seu pensamento. Em um teste de RGP colocando pequenos eletrodos nas pontas dos dedos (por exemplo), você pode capturar esta corrente e amplificá-la verificando assim seu padrão. Isto está sujeito ao sistema nervoso autônomo.

Os técnicos em polígrafo também conectam certo tipo de elástico em seu peito ao polígrafo para que você veja o número de vezes que está respirando, ou como é o seu padrão respiratório: superficial, longo ou perturbado. Em uma respiração normal nós inalamos aproximadamente 1500 cc de ar e exalamos a mesma quantidade gentilmente. No entanto, quando você está respirando profundamente, você pode colocar para dentro e para fora em torno de 2000 cc. Neste momento o impulso será muito forte. Quando você está mentalmente perturbado o padrão respiratório também sofrerá alterações.

Quando todos estes componentes são conectados ao polígrafo, nós observamos três ondas diferentes: padrão respiratório, pressão sangüínea e resistência galvânica da pele. Após dois ou três minutos há uma leitura normal. Se repentinamente o polígrafo muda, isto é uma indicação de que a pessoa mentiu. Um transtorno emocional provocará uma mudança no padrão respiratório, digamos, de 16 tempos por minuto para 25 ou 30 por minuto. Isto pode subir ou descer. Em casos extremos a respiração ou o coração podem até mesmo parar, no caso de um choque ou de uma má notícia. Também com boas notícias: algo muito excitante – digamos que você ganhe 5 milhões de dólares na loteria – isto também pode parar o coração.

Em alguns casos, você está sobrecarregando o capacitor. Em um instante ocorre um curto circuito. A voltagem provinda dos nervos torna-se tão forte que isto gera um curto circuito em tudo: coração e/ou pulmões param, ocorrendo um colapso. Dessa forma, você percebe que seu corpo não é diferente de um mecanismo eletrônico.

O impulso eletrônico em nosso corpo é o prana. O prana vem ao sistema nervoso quando é armazenado pelos condensadores e transformado pelos transformadores. Existem cinco tipos básicos de prana: prana, apana, udana, samana e vyana, assim como pranas menores; a diferença entre os pranas menores e maiores é a voltagem. Mesmo em aparelhos eletrônicos, alguns precisam de alta voltagem e assim existem diferentes tipos de transformadores. No corpo nós chamamos estes transformadores de chakras. Vários nervos vem e vão através dos chakras, Eles não são físicos, mas astrais.

No corpo físico, os lugares onde estes nervos se reúnem na medula espinhal são chamados plexos. Eles são um tipo de cruzamento como uma central telefônica. Os plexos correspondem aos chakras. Este é o lugar onde a energia é armazenada como um condensador, alterada como um transformador e obstruída por um resistor. Todas estas coisas acontecem na mesma área.

Na maioria das pessoas, os transformadores nos chakras superiores não estão completamente abertos; talvez para estudantes avançados eles estejam parcialmente abertos. Ou se há uma tremenda quantidade de impureza, eles agem como resistores. Esta variação nos resistores é automaticamente controlada por seus pensamentos bem como sua dieta. Tudo é controlado pelo pensamento. De acordo com a natureza de seu pensamento, suas impurezas vão aumentar ou diminuir. Para cada um destes três aparelhos em seu sistema: condensadores, transformadores, resistores, todos são controlados por sua mente.

Dessa forma, os yogues vão diretamente a mente para mudar tal padrão. De acordo com a natureza do padrão de seu pensamento, a voltagem aumentará ou reduzirá. Se a voltagem aumentar, então a energia fluirá para um chakra superior. Se você reduzir a voltagem (produzir pensamentos densos de ordem sensual ou sexual), então a energia circulará apenas nos chakras inferiores, porque a voltagem não é suficiente para se elevar aos chakras superiores.

Lembre-se que nem o pensamento e nem o prana estão no corpo físico. Eles estão no corpo astral e de acordo com a natureza de seu pensamento, o prana fluirá no corpo físico. Quando seus pensamentos são muito densos, o prana ou elétrons que fluem para o corpo físico serão reduzidos, já que há muita resistência. Além disso, um nervo físico não pode suportar um poderoso pensamento, pois ocorrerá uma redução do prana até determinada extensão. O sistema nervoso que é impuro não pode transmitir altas voltagens. Algumas vezes, um repentino choque mental pode mesmo cortar este fluxo de prana. Outras vezes, esta corrente é lentamente reduzida a certa extensão que faz com que você pareça um cadáver vivo, em estado de coma.

O propósito último do Hatha Yoga é libertar-se das baixas voltagens e mover-se para uma voltagem mais elevada.

 

Hatha Yoga Pradipika

Este artigo é um excerto do Hatha Yoga Pradipika, o guia clássico para prática avançada em Hatha Yoga (Kundalini Yoga) com comentários de Swami Vishnudevananda.

CONECTE-SE COM SUA DIVINDADE INTERIOR

março 24, 2010

Por Swami Durgananda
Palestra proferida no Sivananda Yoga Centre em Londres
Janeiro de 2009

 Todos nós temos que nos deparar com o sofrimento de doenças, idade avançada e morte. É difícil aceitar que isto faça parte da vida de todos e de nossa própria vida também. E seguem outros sofrimentos aparecendo na forma de desejos incompletos, se as coisas não ocorrem do modo como queremos. No intuito de solucionar estes problemas fundamentais da vida humana algum tipo de orientação espiritual é absolutamente necessário.

No século XXI, estamos voando mais alto do que os pássaros e mergulhando mais fundo do que os peixes. Nós conquistamos o espaço e estamos tentando vencer o tempo. Temos um avançado sistema universitário, bibliotecas e colégios. Contudo, a sociedade humana vive os mesmos temores básicos de sobrevivência. Quão diferentes somos realmente das pessoas que viveram nas cavernas e saiam para caçar? O medo deles era “tenho algo para comer”? Quando a doença surgia “a quem devo recorrer?” ou “o que devo fazer?”. Os mesmos problemas seguem presentes na sociedade moderna.

Recentemente conheci uma senhora que se mudou da cidade para o litoral e lá está tentando se estabelecer. Ela disse “Oh, agora encontrei um flat. Não sabia onde morar. Todos os meus medos se foram”. Ter um lar, ter comida, ter roupas, ter alguns amigos, estas necessidades básicas da humanidade não modificaram desde os tempos pré-históricos. Apesar do acúmulo de conhecimento, universidades e educação, hospitais e democracia, o homem realmente não evoluiu. Por quê?

A razão é que o homem tem ignorado o aspecto espiritual. O caminho interior precisa ser cultivado. Em vez disso, o que vem sendo cultivado é a visão materialista. A mente destreinada pensa que comida e roupas, emprego e moradia, auxílio médico e educação é tudo.

Nesta situação, o yoga tem uma diferença, uma mensagem positiva: os profetas indianos sabiam por experiência própria que o corpo e a mente não são a real natureza do homem. Eles viram que não só o corpo modifica-se constantemente, mas também a mente. Algo que está invariavelmente mudando não pode nos oferecer a paz mental. Apenas compare isto com os pensamentos dos dias de hoje sobre as incertezas na crise financeira mundial.

A visão real do yoga não é a perspectiva materialista em como aprimorar nossa concentração para assim conseguir um melhor trabalho. As escrituras yoguicas como os Upanishads afirmam que o corpo e a mente não são a natureza real do homem. O yoga é chamado de ciência, porque funciona como um experimento.  O yoga treina você física e mentalmente, para tornar-se consciente do momento presente e para liberar-se das falsas identificações de que “eu sou o corpo” e “eu sou a mente”.

Toda a atenção da humanidade está projetada para fora em direção ao denso mundo de nomes e formas. Fazemos isso até mesmo na religião, projetando um nome e uma forma particular que devem ser adorados. A real espiritualidade não se projeta para fora, mas consiste em tornar-se consciente de uma divindade interior. Não precisa ser chamado Deus, já que algumas pessoas não gostam deste nome. Religião e Deus não tem bons nomes. Até mesmo o yoga está começando a ter nome ruim, por estar se tornando muito materialista. Espiritualidade não se refere a uma religião específica ou um nome específico de Deus. Significa que há algo de divino dentro de nós, que verdadeiramente podemos entrar em contato e experenciar.

E há muitos caminhos para se realizar tal feito. Muitas religiões como o Cristianismo e o Budismo tem um fundador, que conectou com a divindade interior e, então, ensinou seus seguidores como encontrar, da mesma forma, tal divindade. Enquanto o fundador praticou austeridades intensas, os seguidores novamente tendem a perceber tais aspectos em um contexto materialista; eles estão procurando a divindade do lado de fora.

O yoga não tem um fundador, mas já tem muitos seguidores materialistas. Em cada século existem uns poucos Mestres de Yoga que realizaram a divindade interior. Swami Sivananda disse, “Não faça de mim uma religião”. Uma religião Sivananda – não seria desagradável? Entretanto, já está acontecendo. É claro que o nome de nossa organização internacional foi nomeada depois de Swami Sivananda, mas quando eu ouvi pessoas dizendo, “Eu ensino Yoga Sivananda”, como sendo diferente de um yoga para outro yoga, isto na realidade não está correto. Swami Sivananda nunca desenvolveu um novo yoga.

O yoga descreve muitos caminhos diferentes de encontrar esta divindade. Não importa o que você veste, onde você está e quem você é – você apenas segue no caminho. Aí está a beleza.

Manhã e noite, você pode sentar em silêncio e abandonar o mundo de sua mente. Assim como no sono profundo você se esquece do estado desperto, da mesma forma se esquece do mundo quando se senta de manhã e de noite. Esquece dos problemas econômicos, esquece de qualquer incompletude amorosa, esquece se seu corpo é grande ou pequeno, jovem ou velho. Se você lidar com isso por alguns minutos, sua mente vai adorar. Será extremamente relaxante. Você não precisa dormir por sete horas para esquecer-se do mundo. Apenas sente-se por alguns minutos.

Somente esquecer-se do mundo na realidade não é possível. A mente precisa de alguma coisa para pensar sobre. Então, relembre a si mesmo que é um ser Divino. Isto é chamado sublimação. Desta forma, você transforma os pensamentos. Lembre-se que é um ser Divino, que você é paz e harmonia. Para isto, não precisa comprar nada, nenhum travesseiro especial, nenhum tapetinho de asana especial. Você não precisa de nada para isto. Os yoguis vêm fazendo isto por milhares de anos. Eles sentam embaixo de uma árvore ou próximo de um rio. Nós temos que retornar a estas verdades básicas e não misturar com aspectos materialistas.

Você pode dizer “Eu não tenho tempo”. Porém, mesmo que você seja muito ocupado, ainda tem tempo para respirar. Então, inale e simplesmente diga “Eu sou um ser divino”. Conseqüentemente, durante este tempo você pode esquecer o mundo.

Se quiser, pode usar um mantra ou qualquer palavra que considere divina. Yoguis usam OM, outros usam Amém, outros ainda usam Shalom, você pode usar Shanti – algo divino. Não use palavras que puxam a mente para baixo, para um enquadre materialista.

Deus ou Divindade é realmente universal. Devemos desenvolver respeito por todas as formas. Em todas as sociedades, as pessoas procuram obter paz mental e harmonia. O grande planeta terra não é mais do que uma faísca do Sol. E ainda estamos lutando sobre o meu território, a minha cultura, a minha língua. A Divindade é universal. Todos os nomes de Deus sugerem o mesmo: eternidade total e perfeição infinita. É isto o que OM representa. Se você diz “OM é um mantra que pertence à religião hindu”, confinou o OM em uma caixa e ele não terá seu efeito universal.

Utilize algo que represente para si mesmo a Divindade infinita. Neste sentido, você pode fazer sua própria religião. Quando tiver confrontado e compreendido completa e objetivamente a idéia de Divindade Universal, talvez conclua que na verdade está apto a seguir uma religião, porque você a enxerga diferente. Apenas discutir e explicar todas as práticas religiosas é inútil, pois onde está então sua própria prática?

O yoga é um processo de cultura do Eu. O Eu está em todos, do contrário, o amor não existiria. Sem amor, como poderíamos viver? Crianças que vivem sem amor necessitam de apoio pelo resto de suas vidas. Pessoas que não recebem nenhum amor tornam-se rapidamente velhas e doentes. É muito importante partilhar esta essência da divindade interior, que é o amor. O yoga quer que você ame não apenas para amar a si mesmo, mas também para fazer os outros felizes. Como Deus trabalha? Deus trabalha através dos seres humanos.

Traga uma divindade radiante para os seus pensamentos. Se você não tem nenhuma diretriz, você pode seguir os Dez Mandamentos, os Yamas e Niyamas do Raja Yoga ou o fazer e não fazer do Budismo. No fundo, todos sabem o que é certo e o que é errado. No entanto, estes guias devem ser constantemente cultivados em pensamento e ação, em seus sentimentos e em sua vida familiar. Por um tempo você vai ser um ‘peixe fora d’água’, mas aos poucos as pessoas vão captar. Eles dirão, “Oh, bem, esta é uma boa pessoa. Deixe-me ser gentil, ele ou ela também é legal comigo”. É claro que a motivação não é a de que você deseja uma ajuda em retribuição, mas é uma resposta natural. O positivo irradia em uma direção, da mesma forma que o negativo irradia para outra. A cultura do pensamento consiste em concentrar-se em coisas positivas.

Hoje em dia o yoga está se posicionando em uma direção altamente materialista. Há uma ênfase completa apenas no corpo. Por esta razão, ensinar asanas por dinheiro é considerado aceitável e muito comum em todo o lugar. Eu acabei de me encontrar com um antigo staff e perguntei a ele “Você tem um emprego”? Ele respondeu “Sim, eu ensino yoga”. Então, lhe disse, “Bem, isto não é um emprego”. Se você considerar ensinar asanas um trabalho, esta é uma visão materialista e não proporcionará paz interior, felicidade e força nesta longa jornada.

No caso da organização Sivananda que cobra taxas pelos cursos oferecidos, a situação é bem diferente. Nenhum dos professores é pago, tudo o que sobra após pagarem-se as contas é investido na ampliação e aprimoramento dos Centros e Ashrams, para que mais pessoas possam ter acesso à experiência do yoga.

A visão materialista sobre o yoga no ocidente precisa mudar. Temos que retornar a essência do yoga, caso contrário, o yoga será arruinado. Tudo o que gerenciamos é arruinado, o ar, os rios, todas as outras coisas, mas não devemos arruinar a última coisa que temos que é nossa própria divindade. A atitude que tomamos rumo a nossa prática de yoga é muito importante. Algumas vezes, os iniciantes são muito estritos em relação ao seu próprio tempo – “oh, deixe-me sozinho, não posso fazer isso agora, preciso fazer meus asanas. Se Deus envia pessoas para conhecê-lo, este é o seu asana neste momento. Você os serve; você partilha seu tempo com eles. Portanto, não seja egoísta e diga “este é o meu tempo, eu tenho que fazer meu yoga”. Qual é o real benefício do yoga se você não tem tempo para seus companheiros? Karma Yoga existe para lembrá-lo que você também tem de fazer os outros felizes. O serviço desinteressado pode ser a essência de nossa vida. Na realidade, esta é a base do yoga.

Swami Durgananda é Yoga Acharya
(diretora espiritual) dos Centros Sivananda de Yoga e
Vedanta na Europa.
e-mail: SwamiDuragananda@sivananda.net