CONECTE-SE COM SUA DIVINDADE INTERIOR

Por Swami Durgananda
Palestra proferida no Sivananda Yoga Centre em Londres
Janeiro de 2009

 Todos nós temos que nos deparar com o sofrimento de doenças, idade avançada e morte. É difícil aceitar que isto faça parte da vida de todos e de nossa própria vida também. E seguem outros sofrimentos aparecendo na forma de desejos incompletos, se as coisas não ocorrem do modo como queremos. No intuito de solucionar estes problemas fundamentais da vida humana algum tipo de orientação espiritual é absolutamente necessário.

No século XXI, estamos voando mais alto do que os pássaros e mergulhando mais fundo do que os peixes. Nós conquistamos o espaço e estamos tentando vencer o tempo. Temos um avançado sistema universitário, bibliotecas e colégios. Contudo, a sociedade humana vive os mesmos temores básicos de sobrevivência. Quão diferentes somos realmente das pessoas que viveram nas cavernas e saiam para caçar? O medo deles era “tenho algo para comer”? Quando a doença surgia “a quem devo recorrer?” ou “o que devo fazer?”. Os mesmos problemas seguem presentes na sociedade moderna.

Recentemente conheci uma senhora que se mudou da cidade para o litoral e lá está tentando se estabelecer. Ela disse “Oh, agora encontrei um flat. Não sabia onde morar. Todos os meus medos se foram”. Ter um lar, ter comida, ter roupas, ter alguns amigos, estas necessidades básicas da humanidade não modificaram desde os tempos pré-históricos. Apesar do acúmulo de conhecimento, universidades e educação, hospitais e democracia, o homem realmente não evoluiu. Por quê?

A razão é que o homem tem ignorado o aspecto espiritual. O caminho interior precisa ser cultivado. Em vez disso, o que vem sendo cultivado é a visão materialista. A mente destreinada pensa que comida e roupas, emprego e moradia, auxílio médico e educação é tudo.

Nesta situação, o yoga tem uma diferença, uma mensagem positiva: os profetas indianos sabiam por experiência própria que o corpo e a mente não são a real natureza do homem. Eles viram que não só o corpo modifica-se constantemente, mas também a mente. Algo que está invariavelmente mudando não pode nos oferecer a paz mental. Apenas compare isto com os pensamentos dos dias de hoje sobre as incertezas na crise financeira mundial.

A visão real do yoga não é a perspectiva materialista em como aprimorar nossa concentração para assim conseguir um melhor trabalho. As escrituras yoguicas como os Upanishads afirmam que o corpo e a mente não são a natureza real do homem. O yoga é chamado de ciência, porque funciona como um experimento.  O yoga treina você física e mentalmente, para tornar-se consciente do momento presente e para liberar-se das falsas identificações de que “eu sou o corpo” e “eu sou a mente”.

Toda a atenção da humanidade está projetada para fora em direção ao denso mundo de nomes e formas. Fazemos isso até mesmo na religião, projetando um nome e uma forma particular que devem ser adorados. A real espiritualidade não se projeta para fora, mas consiste em tornar-se consciente de uma divindade interior. Não precisa ser chamado Deus, já que algumas pessoas não gostam deste nome. Religião e Deus não tem bons nomes. Até mesmo o yoga está começando a ter nome ruim, por estar se tornando muito materialista. Espiritualidade não se refere a uma religião específica ou um nome específico de Deus. Significa que há algo de divino dentro de nós, que verdadeiramente podemos entrar em contato e experenciar.

E há muitos caminhos para se realizar tal feito. Muitas religiões como o Cristianismo e o Budismo tem um fundador, que conectou com a divindade interior e, então, ensinou seus seguidores como encontrar, da mesma forma, tal divindade. Enquanto o fundador praticou austeridades intensas, os seguidores novamente tendem a perceber tais aspectos em um contexto materialista; eles estão procurando a divindade do lado de fora.

O yoga não tem um fundador, mas já tem muitos seguidores materialistas. Em cada século existem uns poucos Mestres de Yoga que realizaram a divindade interior. Swami Sivananda disse, “Não faça de mim uma religião”. Uma religião Sivananda – não seria desagradável? Entretanto, já está acontecendo. É claro que o nome de nossa organização internacional foi nomeada depois de Swami Sivananda, mas quando eu ouvi pessoas dizendo, “Eu ensino Yoga Sivananda”, como sendo diferente de um yoga para outro yoga, isto na realidade não está correto. Swami Sivananda nunca desenvolveu um novo yoga.

O yoga descreve muitos caminhos diferentes de encontrar esta divindade. Não importa o que você veste, onde você está e quem você é – você apenas segue no caminho. Aí está a beleza.

Manhã e noite, você pode sentar em silêncio e abandonar o mundo de sua mente. Assim como no sono profundo você se esquece do estado desperto, da mesma forma se esquece do mundo quando se senta de manhã e de noite. Esquece dos problemas econômicos, esquece de qualquer incompletude amorosa, esquece se seu corpo é grande ou pequeno, jovem ou velho. Se você lidar com isso por alguns minutos, sua mente vai adorar. Será extremamente relaxante. Você não precisa dormir por sete horas para esquecer-se do mundo. Apenas sente-se por alguns minutos.

Somente esquecer-se do mundo na realidade não é possível. A mente precisa de alguma coisa para pensar sobre. Então, relembre a si mesmo que é um ser Divino. Isto é chamado sublimação. Desta forma, você transforma os pensamentos. Lembre-se que é um ser Divino, que você é paz e harmonia. Para isto, não precisa comprar nada, nenhum travesseiro especial, nenhum tapetinho de asana especial. Você não precisa de nada para isto. Os yoguis vêm fazendo isto por milhares de anos. Eles sentam embaixo de uma árvore ou próximo de um rio. Nós temos que retornar a estas verdades básicas e não misturar com aspectos materialistas.

Você pode dizer “Eu não tenho tempo”. Porém, mesmo que você seja muito ocupado, ainda tem tempo para respirar. Então, inale e simplesmente diga “Eu sou um ser divino”. Conseqüentemente, durante este tempo você pode esquecer o mundo.

Se quiser, pode usar um mantra ou qualquer palavra que considere divina. Yoguis usam OM, outros usam Amém, outros ainda usam Shalom, você pode usar Shanti – algo divino. Não use palavras que puxam a mente para baixo, para um enquadre materialista.

Deus ou Divindade é realmente universal. Devemos desenvolver respeito por todas as formas. Em todas as sociedades, as pessoas procuram obter paz mental e harmonia. O grande planeta terra não é mais do que uma faísca do Sol. E ainda estamos lutando sobre o meu território, a minha cultura, a minha língua. A Divindade é universal. Todos os nomes de Deus sugerem o mesmo: eternidade total e perfeição infinita. É isto o que OM representa. Se você diz “OM é um mantra que pertence à religião hindu”, confinou o OM em uma caixa e ele não terá seu efeito universal.

Utilize algo que represente para si mesmo a Divindade infinita. Neste sentido, você pode fazer sua própria religião. Quando tiver confrontado e compreendido completa e objetivamente a idéia de Divindade Universal, talvez conclua que na verdade está apto a seguir uma religião, porque você a enxerga diferente. Apenas discutir e explicar todas as práticas religiosas é inútil, pois onde está então sua própria prática?

O yoga é um processo de cultura do Eu. O Eu está em todos, do contrário, o amor não existiria. Sem amor, como poderíamos viver? Crianças que vivem sem amor necessitam de apoio pelo resto de suas vidas. Pessoas que não recebem nenhum amor tornam-se rapidamente velhas e doentes. É muito importante partilhar esta essência da divindade interior, que é o amor. O yoga quer que você ame não apenas para amar a si mesmo, mas também para fazer os outros felizes. Como Deus trabalha? Deus trabalha através dos seres humanos.

Traga uma divindade radiante para os seus pensamentos. Se você não tem nenhuma diretriz, você pode seguir os Dez Mandamentos, os Yamas e Niyamas do Raja Yoga ou o fazer e não fazer do Budismo. No fundo, todos sabem o que é certo e o que é errado. No entanto, estes guias devem ser constantemente cultivados em pensamento e ação, em seus sentimentos e em sua vida familiar. Por um tempo você vai ser um ‘peixe fora d’água’, mas aos poucos as pessoas vão captar. Eles dirão, “Oh, bem, esta é uma boa pessoa. Deixe-me ser gentil, ele ou ela também é legal comigo”. É claro que a motivação não é a de que você deseja uma ajuda em retribuição, mas é uma resposta natural. O positivo irradia em uma direção, da mesma forma que o negativo irradia para outra. A cultura do pensamento consiste em concentrar-se em coisas positivas.

Hoje em dia o yoga está se posicionando em uma direção altamente materialista. Há uma ênfase completa apenas no corpo. Por esta razão, ensinar asanas por dinheiro é considerado aceitável e muito comum em todo o lugar. Eu acabei de me encontrar com um antigo staff e perguntei a ele “Você tem um emprego”? Ele respondeu “Sim, eu ensino yoga”. Então, lhe disse, “Bem, isto não é um emprego”. Se você considerar ensinar asanas um trabalho, esta é uma visão materialista e não proporcionará paz interior, felicidade e força nesta longa jornada.

No caso da organização Sivananda que cobra taxas pelos cursos oferecidos, a situação é bem diferente. Nenhum dos professores é pago, tudo o que sobra após pagarem-se as contas é investido na ampliação e aprimoramento dos Centros e Ashrams, para que mais pessoas possam ter acesso à experiência do yoga.

A visão materialista sobre o yoga no ocidente precisa mudar. Temos que retornar a essência do yoga, caso contrário, o yoga será arruinado. Tudo o que gerenciamos é arruinado, o ar, os rios, todas as outras coisas, mas não devemos arruinar a última coisa que temos que é nossa própria divindade. A atitude que tomamos rumo a nossa prática de yoga é muito importante. Algumas vezes, os iniciantes são muito estritos em relação ao seu próprio tempo – “oh, deixe-me sozinho, não posso fazer isso agora, preciso fazer meus asanas. Se Deus envia pessoas para conhecê-lo, este é o seu asana neste momento. Você os serve; você partilha seu tempo com eles. Portanto, não seja egoísta e diga “este é o meu tempo, eu tenho que fazer meu yoga”. Qual é o real benefício do yoga se você não tem tempo para seus companheiros? Karma Yoga existe para lembrá-lo que você também tem de fazer os outros felizes. O serviço desinteressado pode ser a essência de nossa vida. Na realidade, esta é a base do yoga.

Swami Durgananda é Yoga Acharya
(diretora espiritual) dos Centros Sivananda de Yoga e
Vedanta na Europa.
e-mail: SwamiDuragananda@sivananda.net

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